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sábado, 11 de outubro de 2008

Homo infimus (Augusto dos Anjos)

Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega Amarguram-te. Hebdômadas hostis Passam... Teu coração se desagrega, Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris! Fruto injustificável dentre os frutos, Montão de estercorária argila preta, Excrescência de terra singular. Deixa a tua alegria aos seres brutos, Porque, na superfície do planeta, Tu só tens um direito: — o de chorar!

No caminho com Maiakovski

"[...] Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada mais nada.
(Maiakovski)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Horas Mortas

Breve momento após comprido dia

De incômodos, de penas, de cansaço

Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,

Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia

Do luar em cheio a clarear no espaço,

Vejo-te vir, ouço-te o leve passo

Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica

Mas é tão tarde! Rápido flutuas

Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica

Sobre o papel — rastro das asas tuas,

Um verso, um pensamento, uma saudade.

Alberto de Oliveira

- PARNASIANISMO

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. Carlos Drummond de Andrade